terça-feira, 30 de junho de 2009

"O Chico Voltou!"

"O Chico voltou!". Ouviam-se, por toda a terra, gritos de contentamento de mulheres e homens, novos e velhos. O Chico voltara e o seu regresso foi para mim um sinal: o meu marido estava bem. Fora recrutado para a Guiné, enquanto que o Chico voltara de Angola, e os gritos de toda a gente forçaram-me a crer que nada de mau lhe acontecera. Vivia angustiada ia já fazer um ano, três meses e uma semana e a vinda do Chico mudou-me.
Não falava com ele, não podia falar com ele. O filho da puta do regime dera início a batalhas sangrentas, que não eram uma luta dos portugueses, mas uma casmurrice do Governo. As notícias chegavam fazendo o povo acreditar que a culpa estava no outro lado e que desse lado queriam roubar-nos as terras e fazer-nos perder a honra.
Quem voltava, embora estivesse proíbido de contar a realidade do Ultramar, levantava o pano, a pouco e pouco: mortes e mortes e mortes e mortes, mortes frias e a frio nas quais ninguém, NINGUÉM, reconhecia a sua culpa numa guerra que começara perdida. Vivos enterrados, cadáveres por toda a parte. Era assim que eles contavam.
Os soldados que partiam de Portugal estavam condenados a trinta meses de serviço, trinta longos meses que, se a mim me agoniavam, aos condenados os consumiam por dentro, mesmo depois de estes voltarem.
Nunca falei com o Chico e soube por ele que fiquei viúva.

1 comentário:

  1. Mais trágico que ter acontecido como aconteceu é a banalização da guerra e a insidiosa ausência de memórias.
    A "Menina dos Olhos Tristes, do Zeca, ficava aqui bem como música de fundo.

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