segunda-feira, 29 de junho de 2009

Culturas da Terra


Desde pequenino que gostava de aprender a ler, para compreender melhor as coisas ou as palavras no jornal que todos os dias lá tem o Jacinto. Há dias em que venho da terra e que, por esta não me esgotar como é costume, quero sentar-me como os outros e não posso, porque pensam que não tenho nada para dizer.
Talvez por isso sempre tenha gostado tanto da rádio: é como se de qualquer outro lado alguém se dirija exclusivamente a mim, se interesse por aquilo que penso. Por não saber ler vejo, todos os dias, os meus pensamentos rejeitados, apagados. Mas mesmo assim, há aqueles que fingem saber ler perfeitamente como o Rui e que, por isso, toda a gente os ouve.
Cresci a trabalhar, a ter de trabalhar para comer e nunca fui à escola. Nem podia. Nunca casei ou tive filhos e os meus pais morreram cedo. A família é daqui, todos moramos perto, mas tentamos distanciar-nos, de forma constante. Quando nos morrem os pais deixamos de ter família. E nunca aprendi a ler. A mim bastava-me saber ler... Já nem digo assinar, mas só saber ler, só para saber.
A cada dia, o sol faz-me exausto e a terra atrai-me de maneira a que não seja capaz de largá-la. Mas eu gosto e a cada sol e a cada primavera estou mais velho. E este burro velho vai perdendo chances.
Como deve ser evidente não fui eu a escrever isto, mas fui eu a pensá-lo e a ditá-lo e já estou velho para aprender a ler.

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