A Amélia não conseguiu. Não consinto em saber por que razão esta tragédia aconteceu, até porque não é relevante. Vivemos longe de tudo durante quantos anos? Três, quatro? Por aí.
Neste momento, resto sozinha num espaço que partilhava com Amélia e que nunca foi nosso. Quando ela cá estava era diferente, pois apesar de este não ser sequer o seu verdadeiro nome, desabafávamos mentirosamente para que as paredes nos não ouvissem. E quando estas deixavam de ser surdas invadiam aquele espaço e, desconfiadas, acreditavam em nós.
Daí que as verdades tenham sido ditas na rua, ao passar dos automóveis e das pessoas, de homens e mulheres que, também eles, ansiavam por verdade. Aqui, as paredes não podiam ouvir-nos e tudo era menos terrível. Como pode ser possível? Como pôde sê-lo?
A vida da minha Amélia, de quem nunca soube o nome, foi calada por três paredes, às duas e vinte e cinco da manhã, num dia em que a "morte saiu à rua", como diria o Carlos.
Antónia
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