Lugar do Senhor do Monte, 9 de Fevereiro de 1964
Estimado Padre,
Escrevo-lhe no dia de hoje, pois ilustrei esta missa de Domingo com o seu exemplo, a partir deste lugarejo que nunca viu o mar, perdido na serra. O país atravessa uma situação de crise e opressão que, progressivamente, se agudiza e que tem o seu mais degradado reflexo nos territórios coloniais. Desde 1961, perpetua-se, nas colónias, um violento ciclo de mortandade: pretos e brancos, lutando por lados diferentes, acabam morrendo, qual jogo de dominó.
Os brancos, Padre, que se acham invencíveis e com direitos superiores e os negros oprimidos, que se organizam em guerrilhas, morrem, afinal, como Deus os trouxe à Terra: todos iguais. Os brancos, em favor do Império, lutam pelos interesses que os senhores do dinheiro têm em África; os pretos pela terra que é sua e que, outrora, lhes fora extorquida pela ganância dos brancos.
Neste quadro, venho revelar-lhe, Padre, que a sua convicção inabalável e a sua arte de pregar me trazem uma alegria e esperança sempre vivas de que, um dia, todos veremos o Próximo como alguém igual a nós. Desejo, incessantemente, tirar das garras colonizadoras estas minorias africanas. Certo dia, reflectindo, conclui que, quando o Padre conseguiu um novo estatuto para os índios do Maranhão, quem os explorava eram os portugueses e que, agora, uma sangrenta guerra se trava no Ultramar, devido ao domínio forçado que os portugueses novamente exercem sobre outro território. Onde estão os portugueses que, em tempos remotos, lutaram pela liberdade dos mais fracos? Pois para além de estarmos já oprimidos pela figura do presidente do Conselho e pela polícia política na metrópole, isso não nos bastou e deliberámos continuar com a ocupação colonial.
Aquando dos tempos do Seminário, muito li sobre a sua vida e, sobretudo, sobre a sua obra, Padre. Agora, padre de profissão que sou, compreendo o quão úteis seriam a sua presença e acção para me auxiliar na limpeza da perfídia das almas neste país. Utopia? Talvez. Contudo, a grandiosa nação que é o Brasil em boa parte o deve a si, Padre. A si, que nasce sob a égide do signo Aquário, em Fevereiro de 1608, na bela cidade de Lisboa, louvo-lhe a coragem com que enfrentou a sua própria nação, em favor da abolição da escravatura no Brasil.
No estreito armário da Sacristia (o qual vejo como a minha biblioteca) descobri que, durante a sua estada em Roma (entre 1669 e 1675) pregava em Italiano. O povo entendia-o da mesma forma, Padre? A expressão que obteve dos rostos italianos diferia da dos rostos portugueses? Ou as exaltações, hesitações e ponderações da sua pregação estão dependentes da língua em que prega? A questão, Padre, passa pelo facto de, a partir deste lugar, a força das palavras que profiro ser vã. Quando prego, as palavras parecem abater-se sob os montes, deixando as missas mudas ao vento.
Hoje, quando o sino deu as nove da manhã e todos se acomodaram nos bancos da igreja, comecei por relatar o episódio da investida holandesa em São Salvador da Baía em 1624, na sequência da qual o senhor se refugiou no sertão, despertando aí o seu espírito de missão. A este relato acrescentei os seus conhecimentos em Lógica, Metafísica, Matemática e Retórica, para que o povo aprenda que os desejos de igualdade e justiça social não são, de todo, ideais dos mais modestos. A história dos índios brasileiros foi suficiente para que as setenta e três pessoas pertencentes a esta paróquia despertassem para as atrocidades cometidas na Guiné, em Angola e em Moçambique e para a situação calamitosa em que estas regiões se encontram. Ali, todas as mulheres tinham, pelo menos, um dos seus filhos a combater no Ultramar. Olhei em volta e foi então que desci as escadas do púlpito, como o Padre de lá se retirou com destino ao sertão. Prossegui a pregação, já junto daqueles perto dos quais não se justifica a presença do púlpito e, reduzindo o tom de voz, perguntei ao meu pequeno, mas honesto público: “O que nos distingue a nós, Portugueses, dos nativos angolanos?”, ao que o Zé Ferreiro respondeu imediata e timidamente: “Ora, a cor da pele. Eles são pretos e nós somos brancos.”. Era esta resposta que pretendia obter para o citar a si, Imperador da Língua Portuguesa. Respondi, então: «“A causa da cor da pele é o sol. As nações, umas são mais brancas, outras são mais pretas, porque umas estão mais vizinhas, outras mais remotas do Sol”. Padre António Vieira, Sermão da Epifania, 1662».
O público começou a abandonar a igreja e, curiosamente, só as mães dos jovens que estavam no Ultramar permaneceram, fitando-me intensamente. Apesar dos olhares atentos que encontrava, estava plenamente consciente de que a projecção que este auditório daria às ideias anti-colonialistas era nula e de que não sairia das paredes desta Igreja. Aliás, estas mulheres assemelhavam-se, de certa maneira, aos peixes a que Santo António pregara, visto que os homens não o queriam ouvir: escutavam, sem responder. Este episódio serve de base ao seu Sermão de Santo António aos Peixes, pregado em São Luís do Maranhão em 1654. Agora, Padre, os homens dizem não precisar da fé. Quem estará, neste momento, mais corrompido? O sal ou a terra? Nos nossos dias, já nem o sal salga, nem a terra se deixa salgar.
Escrevo-lhe da prisão, Padre, para onde a polícia do regime me trouxe, após ter tomado conhecimento do discurso desta manhã. Todavia, sinto ainda uma felicidade imensa: o som da minha voz ultrapassou, finalmente, o relevo acidentado dos montes.
Com os melhores agradecimentos e cumprimentos,
Padre António Cerdeira.
(Pintura a óleo de Lucy Launer, “Fish”)